4.12.05



radioharekrishna.com
AS DUAS ALMAS NO CORPO
Embora ocupemos o corpo, devemos saber que ele pertence a outrem.

Por Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami
Acarya-fundador da Sociedade Internacional da Consciência de Krishna

upadrastanumanta ca
bharta bhokta mahesvarah
paramatmeti capy ukto
dehe ‘smin purusah parah

“Contudo, neste corpo há um outro, um desfrutador transcendental, que é o Senhor, o proprietário supremo, que age como o supervisor e permissor, e que é conhecido como Superalma” – Bhagavad-gita 13.23.

Existem dois purusas, ou desfrutadores. Um é a entidade viva (atma) e outro é a Superalma (Paramatma). Algumas vezes, os filósofos impersonalistas (Mayavadis) não vêm diferença entre atma e Paramatma. Contudo, a própria Personalidade Suprema de Deus explicou categoricamente que existem dois purusas. Um está desfrutando dos resultados das suas atividades – prakrti-sthah. Por estar influenciado pelas qualidades da natureza material (prakti), o primeiro é sad-asad-yoni-janmasu: aquele que nasce em diferentes tipos e espécies de vida. O outro desfrutador é upadrasta, o supervisor. Este simplesmente observa como o outro purusa atua. De acordo com a ação (ou karma) da entidade viva, o supervisor confere os resultados. O supervisor é a testemunha.

Se a entidade viva age piedosamente, então ela adquire um certo tipo de corpo. Janmaisvarya-sruta-sri. Ela recebe um belo corpo, nasce numa família rica ou de pessoas eruditas, ou numa família de brahmanas. Ela obtém opulências, um belo corpo, uma boa educação. Estas prerrogativas aparecem porque Paramatma está observando as atividades do jivatma purusa. De acordo com o karma de cada alma e segundo seus desejos, a Superalma confere diferentes tipos de corpos.

Em outro verso (Bhagavad-gita 18.61), afirma-se que isvarah sarva-bhutanam hrd-dese ‘rjuna tisthati: a Suprema Personalidade de Deus como Paramatma (Antaryami) está situada no coração de todos. Bhramayan sarva-bhutani yantrarudhani mayaya (Bhagavad-gita 18.61): Ele está controlando maya (a energia ilusória), que dá a cada entidade viva um tipo especial de corpo, com o qual ela faz suas andanças.

Por exemplo, de acordo com o preço, vocês podem comprar um carro, que pode ser um Rolls Royce, Chevrolet, Cadillac, Ford, Ambassador, Jeep e assim por diante. De acordo com seu poder aquisitivo, vocês compram um certo tipo de carro e com ele podem viajar. Da mesma forma, dependendo do seu karma bom ou mau, vocês obtêm um tipo de corpo. Existem 8.400.000 espécies de corpo e vocês podem obter uma delas para serem felizes ou sofrer.

Tatha dehantara-praptih (Bhagavad-gita 2.13). Vocês precisam trocar de corpo. Mais tarde, vocês poderão obter o corpo de um cão ou gato, de uma árvore, ou um semideus (por exemplo, Brahma ou Indra), um corpo indiano ou americano, uma serpente, um inseto ou um pássaro – qualquer um. Não há qualquer garantia de quais corpos vocês terão. Isto será determinado por seu karma. Infelizmente, as pessoas não sabem disto. Assim como os animais, elas não sabem como conseguir um corpo melhor.

asitim caturas caiva
laksams tan jiva-jatisu
bhramadbhih purusam prapyam
manusyam janma-paryayat

“A vida humana é tão importante, que até mesmo os semideuses nos planetas superiores às vezes desejam adquirir um corpo humano nesta Terra, porque só no corpo humano a pessoa pode facilmente voltar ao Supremo”.

Esta é uma afirmação encontrada no Padma Purana. Janma-paryayat: pela evolução, chegamos à forma do corpo humano e na forma humana temos a oportunidade de desenvolver a consciência de Krishna. Se não fizermos isto, estaremos desperdiçando a oportunidade.
Vocês terão seus próximos corpos de acordo com seu karma. Contudo, se aceitarem a consciência de Krishna com estes corpos e tentarem entender Krishna, então tyaktva deham punar janma naiti (Bhagavad-gita 4.9) – após deixarem estes corpos, vocês não precisarão aceitar outro corpo material. Este é o objetivo do movimento da consciência de Krishna. Estamos tentando educar as pessoas a se tornarem conscientes de Krishna, de forma que não precisem mais aceitar outros corpos materiais.
ALMA E SUPERALMA
O outro purusa descrito neste verso é o Paramatma. Nós somos almas (atmas) e Ele é a Superalma (Paramatma). Ele é isvara, o controlador; Ele é Paramesvara, o controlador supremo. Nós não somos Paramesvara. Somos Brahman (espírito), enquanto Ele é Prabrahman (espírito supremo).

A palavra param (supremo) é usada neste verso. Contudo, algumas vezes, homens com pouca inteligência não conseguem diferenciar entre Paramatma e atma, ou Paramesvara e isvara.
Aqui há uma outra frase: bhokta mahesvarah. Não somos bhokta, desfrutadores. Estamos tentando nos tornar bhokta, mas com isto nos frustramos. É impossível, não podemos ser bhokta. Podemos ser desfrutados, predominados, mas não predominadores. Uma coisa é ser desfrutado, outra é ser aquele que desfruta. O Senhor Supremo é o desfrutador. Bhoktaram yajna-tapasam sarva-loka-mahesvaram (Bhagavad-gita 5.29).

Mahesvara, ou maha isvara. Maha significa grande. Isvara significa controlador. Podemos ter algumas pessoas sob nosso controle, mas a palavra Mahesvara significa que Deus controla todas as entidades vivas. Nityo nityanam cetanas cetananam (Katha Upanisad 2.2.13). Sentimos muito orgulho por controlarmos uma fábrica, alguns milhares de trabalhadores, mas não somos Mahesvara. Mahesvara é Krishna, a Suprema Personalidade de Deus, que em seu aspecto Paramatma está situado nos corpos de todos. Paramatmeti capy ukto dehe ‘smin. Asmin dehe significa “dentro deste corpo”.

Existem duas almas. Neste capítulo, Krishna diz, ksetra-jnam capi mam vidhi sarva-ksetresu bharata (Bhagavad-gita, 13.3): “Você deve compreender que Eu também sou ksetra-jna” O corpo é ksetra (ou campo) e a alma é ksetra-jna, ou aquele que conhece o corpo. Vocês têm seus corpos e eu também tenho o meu. Eu sei que este é meu corpo, vocês também sabem quais são seus corpos, da mesma forma que vocês conhecem seus apartamentos ou suas casas. Contudo, há um acompanhante em nosso corpo. Ele é Krishna, Paramatma. Eu posso cuidar do meu corpo, pois sou seu proprietário. Mas Krishna é o proprietário de todos os corpos.

O inquilino ocupa a casa, mas o senhorio é o proprietário. Da mesma forma, eu ocupo este corpo e Krishna (Paramatma) é o proprietário deste corpo. Entender isto é conhecimento. Eu não sou proprietário deste corpo. Portanto, outro nome de Krishna é Hrsikesa. Hrsika significa sentidos e isa significa o controlador. Podemos afirmar: “Esta é minha mão”, mas isto não é verdade, pois a mão pertence a Krishna. O inquilino pode ocupar um quarto, mas ele não é o proprietário deste quarto. O proprietário é uma pessoa diferente. Assim também, nós podemos ocupar este corpo ou qualquer outro, mas não somos os proprietários.

Logo que entendemos que “não somos proprietários destes corpos; simplesmente ocupamos estes corpos”, isto é conhecimento. Afirmamos incorretamente que somos proprietários destes corpos. Contudo, isto não é verdade. Portanto, não sou capaz de reparar coisa alguma. Se uma parte ou membro do meu corpo ficar lesada, não sei como repará-la. Entretanto, Krishna pode fazer isto, porque Ele é o proprietário e controlador (Hrsikesa).
Hrsikena hrsikesa-sevanam bhaktir ucyate. Vocês precisam pagar ao proprietário do seu apartamento. Da mesma forma, precisamos servir a Krishna, que nos permite ocupar este corpo. Isto é devoção.
TODAS AS MÃOS E PERNAS DE KRISHNA
Também se explica que: sarvatah panipadam tat. O Senhor Supremo tem Suas mãos e pernas em todos os lugares. Como é isto? É porque minhas mãos e suas mãos são de Krishna. Portanto, elas devem ser usadas para Krishna.

De acordo com a noção corrente, como penso que estas mãos são minhas, eu as utilizo para me alimentar, mas não para levar alimentos aos outros. Contudo, na verdade, todas as mãos e pernas pertencem a Krishna e deveriam ser usadas para Krishna. Isto é devoção (bhatki). Se vocês não usarem suas mãos e pernas desta forma, estarão contra as leis da natureza.
Krishna, a Superalma, é anumanta: sem Sua permissão, vocês não podem fazer coisa alguma. Como tudo pertence a Krishna, como vocês poderiam usar algo sem Sua permissão? Vejamos o exemplo de um pai e seu filho pequenino. A criança pode querer fazer alguma coisa e pede permissão ao pai, que a dá. Em nossa infância, lembro-me que mesmo para ir ao banheiro era preciso pedir permissão à minha mãe. “Eu posso ir?” Isto é natural. A mãe não está impedindo, mas ainda assim devo pedir sua permissão. “Eu posso ir, posso ir?” Eu me lembro disto. Isto é natural. Da mesma forma, não podemos fazer coisa alguma sem a permissão da Superalma, que está dentro dos nossos corações. Portanto, Ele é anumanta.

Quando fazemos alguma coisa errada, por que Krishna como Paramatma deu permissão? Alguém poderia fazer esta pergunta. Porque não posso fazer coisa alguma sem Sua permissão, Ele deve ter dado autorização para eu fazer alguma coisa errada. Isto já foi explicado.

purusah prakrti-stho hi
bhunkte prakrti-jan gunan
karanam guna-sango ‘sya
sad-asad-yoni-janmasu

“Dessa forma, a entidade viva dentro da natureza material segue os caminhos da vida, desfrutando os três modos da natureza. Isto decorre de sua associação com esta natureza material. Assim, ela se encontra com o bem e o mal entre as várias espécies de vida” (Bhagavad-gita, 13.22). Krishna pode dar permissão, mas você terá que arcar com o prazer e sofrimento advindos disto. Você insiste em obter permissão: “Eu quero fazer isto”. E sem permissão, você não pode fazer. Por fim, Krishna dá a permissão: “Tudo bem, faça isto, mas o risco é seu”. Krishna não quer que você faça isto, mas você quer. Desta forma, Ele dá permissão. Krishna quer que nos rendamos a Ele: sarva-dharman parityajya mam ekam saranam (Bhagavad-gita 18.66). Esta é sua ordem. Contudo, nosso desejo é outro.

“Senhor, não me renderei. Eu quero fazer isto.”
“Tudo bem, faça-o, mas os riscos são seus”.

No entanto, se seguirem as instruções de Krishna, então Ele cuidará de vocês. Aham tvam sarva-papebhyo moksayisyami. Por esta razão, vocês realizam atos pecaminosos ou piedosos e desfrutam dos resultados, mas quando seguem as instruções de Krishna, não há esta dualidade. Suas ações são transcendentais. Isto é conhecido como Brahman e está acima dos três modos da natureza material (gunas).

mam ca yo ‘vyabhicarena
bhakti-yogena sevate
sa gunan samatityaitan
brahma-bhuyaya kalpate

Krishna diz, “Aquele que se ocupa em serviço devocional pleno e não falha em circunstância alguma, transcende de imediato os modos da natureza material e chega então ao nível de Brahman” (Bhagavad-gita, 14.26). A mesma instrução aparece em outros versos.
Se vocês quiserem agir buscando a própria satisfação, Krishna dará permissão, mas vocês terão que desfrutar ou sofrer as conseqüências. Isto é muito fácil de entender. Portanto, Krishna é conhecido como anumanta, aquele que dá permissão: “Sim, você pode agir. Você pode fazer isto”.
DOIS PÁSSAROS NUMA ÁRVORE
Nos Upanisads, explica-se figurativamente que existem dois pássaros (almas) nesta árvore (corpo). Uma está observando e a outra desfrutando. O pássaro que observa é o Paramatma, Krishna. Ele é upadrasta: simplesmente observa suas atividades e traz as conseqüências dos seus atos. Além disto, Krishna é anumanta. Aquilo que vocês estão fazendo agora, Ele não quer. Contudo, como vocês pedem insistentemente para fazer isto, Krishna dá permissão – porque sem Sua permissão, vocês nada poderiam fazer. Esta é a conclusão.

Krishna é o mantenedor. Vocês não podem conseguir coisa alguma sem Sua misericórdia. Pode haver amplo suprimento de gêneros essenciais à vida pela graça de Krishna, mas também pode haver escassez. Hoje em dia, as pessoas reclamam da superpopulação. Não há problema algum com a superpopulação. Krishna é muito competente e capaz de manter a todos. Contudo, quando se afastam de Deus, quando desobedecem às Suas leis, vocês vivem a escassez. Vocês não podem suprir todas as necessidades essenciais à vida.

Este tempo já chegou. Todos estes patifes e ateus estão sofrendo agora. A única solução é tornar-se um devoto. Krishna é bharta: Ele pode manter muitos milhões de pessoas. Não há problema quanto à superpopulação. Ele pode manter. Contudo, a natureza não suprirá ou limitará os suprimentos, se vocês forem infiéis a Deus. A natureza é muito firme e rigorosa. Daivi hy esa gunamayi mama maya duratyaya (Bhagavad-gita, 7.14). Krishna limitará os suprimentos.

Na presente era, Kali-yuga, as pessoas estão ficando degradadas e os suprimentos serão reduzidos. Não haverá suprimento de leite ou açúcar. Isto está descrito no Srimad-Bhagavatam. Não haverá suprimento de arroz ou trigo. Agora vocês podem adquirir estes itens, seja no mercado negro ou no comércio, mas chegará um tempo em que não haverá suprimentos. Vocês serão forçados a comer carne. Aqui na Índia já estão abrindo restaurantes que vendem carnes, ou grandes açougues. O tempo já chegou e aos poucos esta situação será ampliada, a menos que vocês aceitem a consciência de Krishna.

kaler dosa-nidhe rajann
asti hy eko mahan huna
kirtanad eva krsnasya
mukta-sangah param vrajet

“Meu querido rei, embora Kali-yuga seja um oceano de defeitos, existe ainda assim uma boa qualidade em relação a esta era: pelo simples cantar do maha-mantra Hare Krishna, pode-se ficar livre do cativeiro material e ser promovido ao reino transcendental” (Srimad-Bhagavatam, 12.3.51.)

Kali-yuga é uma era de sofrimentos. Por não aceitarem Deus, as pessoas não podem ter uma vida confortável nesta era. Além disto, Kali-yuga significa ausência de Deus. Mandah sumanda-matayo manda-bhagya hy upadrutah (Srimad-Bhagavatam 1.1.10). Portanto, todos devem aceitar a consciência de Krishna para se salvarem das investidas de Kali-yuga, que crescerão a cada dia.

Muito obrigado.

Palestra proferida por Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, fundador-acarya da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, em Bombaim, a 22 de outubro de 1973.
Você não é este corpo

O princípio básico de quem busca o avanço em conhecimento espiritual é que ele deve se convencer de que não é o corpo, mas sim a alma que habita dentro do corpo. O corpo grosseiro é feito de terra, água, fogo, ar e éter. E por trás disso está o corpo sutil, constituído de mente, inteligência e ego. Quando alguém abandona o corpo grosseiro, o corpo sutil o carrega para outro corpo grosseiro.

Portanto, quando o corpo morre, o corpo sutil não morre. À noite, por exemplo,
quando o corpo grosseiro dorme, o corpo sutil trabalha, e por isso a pessoa sonha. Da mesma forma, quando o corpo grosseiro morre, o corpo sutil carrega a alma para a próxima vida.

Na introdução que escrevi para o Bhagavad-gita há uma explicação de como ocorre a mudança de corpos. Quando a mente, a inteligência e o ego de um moribundo absorvem-se em certo tipo de pensamento, este pensamento, o leva para um corpo correspondente na próxima vida. Assim como o ar puro é inodoro, mas quando passa através de uma roseira carrega o aroma da rosa e quando passa através de um lugar imundo carrega o fedor daquele lugar, de igual modo, a mente, a inteligência e o ego carregam a característica de nossas atividades atuais para próxima vida. Esse é o mistério sutil da transmigração da alma de um corpo para outro.

Se nesta vida alguém purifica sua consciência, então na próxima obterá um corpo pleno de características transcendentais. Se nesta vida ela presta serviço a Deus com devoção, então na próxima vida será um companheiro de Deus. Tudo está em suas mãos. Se ele quer se degradar, pode se preparar nesta vida para deparar-se com a degradação na próxima. E se quer se elevar à perfeição máxima da vida, ou seja, tornar-se um dos companheiros de Deus, pode se preparar para isso. Como?
ALÉM DOS CORPOS GROSSEIRO E SUTIL
Analisemos um exemplo: Sem ouvir sobre um lugar, você não pode desejar viver lá. Nosso amigo, o Senhor Cohen partiu para Califórnia. Eu não conheço a Califórnia. Mas o Senhor Cohen disse que depois de chegar lá ele me escreverá dando uma descrição daquele lugar. Agora, suponhamos que depois de ler essa descrição, eu pense em ir lá. Então irei me preparar para ir para a Califórnia. Da mesma forma, quando lhes descrevo o mundo espiritual, vocês ficam muito interessados e desejam conhecê-lo. Portanto, temos de ouvir. Sem ouvirmos como é Deus, em que tipo de lugar Ele vive, como é a vida lá, não nos sentiremos atraídos.

Agora, para ir ao mundo espiritual, primeiro temos de nos livrar dos dois corpos em que estamos vivendo—o corpo grosseiro e o corpo sutil. Quando o corpo grosseiro de um homem aparece morto, deve-se saber que o corpo sutil o levou para outro corpo. O corpo sutil não perdeu a vida. A vida continua existindo.

Mas quando se alcança a liberação, o corpo sutil também tem de ser deixado. E já que de qualquer forma tem-se de abandonar o corpo, porque chorar pelo corpo? Portanto, no Bhagavad-gita, Krishna diz a Arjuna: ‘Um homem sábio não se lamenta pelo corpo. Quem é deveras sábio não se preocupa demais com o corpo. Ele se preocupa mesmo é com as atividades da alma. Você se faz passar por um homem sábio, mas você é o tolo número um, porque todas as suas preocupações baseiam-se no corpo e nos relacionamentos corpóreos”.

Qualquer um que se identifique com o corpo não é sábio; é um tolo. Ele pode ser um bacharel, doutor, Ph.D., mas se se identifica com o corpo, então, segundo o Bhagavad-gita e segundo a literatura védica, ele não é um homem sábio. Essa é a primeira instrução sobre a vida espiritual. Quem quer atingir conhecimento espiritual avançado, deve ter o conhecimento preliminar de que não é o corpo. Este não é um entendimento muito avançado; é apenas o A-B-C da vida espiritual.
UMA SOCIEDADE DE VACAS E ASNOS
No Bhagavatam, um clássico da literatura védica, há um verso muito importante a este respeito;
yasyatma-buddhih kunape tri-dhatuke
sva-dhih kalatradisu bhauma-ijya-dhih

Kunape significa “saco”, e tri-dhatuke refere-se aos três elementos que constituem o corpo. De acordo com o sistema médico milenar da Índia, o corpo é feito de três elementos: kapha, Pitta e vayu (água, fogo e ar). Portanto, o corpo é chamado de um saco constituído desses três elementos.

O Bhagavatam diz: “Alguém que se identifica com o corpo feito de água, fogo e ar; que considera os parentes como propriedade sua, que vê a terra em que nasceu como adorável, que vai aos lugares de peregrinação apenas para se banhar, não é melhor do que uma vaca ou asno”.

Meus filhos, minha esposa, meus parentes meu pai, minha mãe, meu irmão, minha nação, minha sociedade todas essas idéias são decorrentes das relações corpóreas. Há milhares de mulheres nas ruas de Nova Iorque, mas por que alguém tem uma relação corpórea com uma mulher em particular, ele a chama de sua esposa. E porque tem uma relação corpórea com os filhos gerados por ela, eles são seus filhos. Mas o princípio básico de pensar que se é o corpo está errado. Visto não ser ele o corpo, as expansões do corpo não lhe pertencem. Mas o mundo inteiro vive sob essa impressão errônea.

A luta entre uma nação e outra deve se ao corpo. Hoje em dia todos estão lutando por terras. Há luta entre indianos e paquistaneses, entre vietnamitas e americanos, e assim por diante. Tanta luta está acontecendo por causa de terra. A terra se tornou tão adorável que um homem chega a sacrificar a sua valiosa vida por ela. Por que os tolos julgam sua terra tão querida? Só porque seu corpo nasceu ali. Tudo por causa da conexão corpórea.

No mundo cristão consideram-se sagradas às águas do rio Jordão. Igualmente, entre os hindus costuma se ir a lugares de peregrinação para se banhar em seus rios sagrados. Deve se saber que ir a um lugar sagrado não significa apenas banhar se ali. O verdadeiro propósito de ir a um lugar sagrado é encontrar homens eruditos em conhecimento espiritual, associar se com eles e aprender com eles. Este é o propósito de ir a um lugar de peregrinação.

Minha residência fica em Vrndavana na Índia. Lá vivem pessoas muito eruditas e santas. Deve-se ir a tais lugares sagrados não apenas para se banhar deve-se ser inteligente o bastante para buscar conhecimento com os homens espiritualmente avançados que vivem ali e assim se beneficiar. Mas as pessoas em geral não vão lá para se encontrar com os santos. Elas apenas se banham e compram algumas mercadorias e depois saem fazendo propaganda de que estiveram em tal lugar de peregrinação.

O Bhagavatam diz que semelhantes pessoas são como vacas e asnos. Praticamente o mundo inteiro não passa de civilização de vacas e asnos. Porque todos fundamentam sua vida e conceitos na identificação com o corpo. O corpo é o centro de tudo.

Os lugares sagrados adquirem certo magnetismo assim como a minha Vrndavana. Agora estou sentado aqui em Nova Iorque a maior cidade do mundo, mas meu coração sempre está ansiando por Vrndavana. Eu não sou feliz aqui. Eu ficarei muito feliz de voltar para minha Vrndavana, aquele lugar sagrado. Mas aí alguém pode perguntar: “Mas então por que o senhor veio para cá?” Por que é meu dever. Eu trouxe uma mensagem para o povo ocidental. Porque meu mestre espiritual, meu superior, ordenou que eu viesse aos países ocidentais e distribuísse todo o conhecimento que eu aprendera com ele. Logo, apesar de todas as minhas dificuldades, de todas as inconveniências, estou aqui por uma questão de dever. Se eu for para Vrndavana, ficarei muito confortável lá, sem nenhuma espécie de ansiedade. Mas aceitei todo esse risco na velhice porque estou atado pelo dever. Por isso tenho de executar meu dever apesar de toda as inconveniências. Esse é o motivo.

Dessa maneira, Krishna descreve qual é a nossa posição: não somos o corpo. Isto é correto. Mas o que somos então? E isto Krishna também vai responder. Krishna tem tamanho conhecimento que não pode haver nenhum erro em Seus ensinamentos. Ele é a autoridade, logo tudo o que Ele diz está certo. Esta é a definição de Bhagavan: aquele que é pleno em todas as opulências. Logo, não se pode encontrar nem um erro em Suas palavras.

As pessoas comuns têm quatro imperfeições: cometer erros, iludir-se, ter sentidos imperfeitos e enganar. Primeiro todos cometem erros. Mesmo Gandhi, o eminente político, cometeu erros; e também muitos outros grandes homens erram. “Errar é humano.” Qualquer um, não importa quão formidável seja ele segundo a estimativa das pessoas, com certeza comete erros.

Outra imperfeição é iludir-se. Ilusão significa confundir uma coisa com outra. No deserto, às vezes confunde-se terra com água. Isso se chama ilusão. De igual modo, todos que se identificam com o corpo estão sob ilusão. Mesmo o presidente está em ilusão. Mesmo o maior cientista está em ilusão.

A imperfeição seguinte é a tendência a enganar. A pessoa é imperfeita, mas quer dar conhecimento aos outros. Isso é enganação. Talvez vocês perguntem: “O senhor também não nos está dando seu conhecimento...?” Não. Eu não estou lhes dando meu conhecimento. Estou falando o Bhagavad-gita. Estou lhes dando o conhecimento como este foi dado pelo Senhor Krishna. Não é meu conhecimento.

E a quarta imperfeição é ter sentidos imperfeitos.

Alguém que não está influenciado por estas quatro imperfeições -- que nunca comete erros, nunca se ilude, nunca engana os outros e não tem sentidos imperfeitos --, Ele é Deus. Essa é a definição Deus. E alguém que não seja Deus, mas que chegue à plataforma de vida perfeita, é liberado. Então, ele se torna tão bom quanto Deus. Essa pessoa está liberada do conceito de vida corpórea.

Trechos de uma palestra dada em Nova Iorque em 4 de março de 1966, por Sua Divina Graça A.C.Bhaktivedanta Swami Prabhupada, fundador-acharya da Sociedade Internacional da Consciência de Krishna
A CIVILIZAÇÃO ILUSÓRIA
Maya-sukhaya. Na verdade, este é um fato: temos uma civilização ilusória. Todos os anos, milhares de carros são fabricados e, por esta razão, muitas rodovias são abertas e pavimentadas. Isso gera um problema atrás do outro. Portanto, isto é maya-sukhaya, felicidade ilusória; apesar disto, estamos tentando ser felizes dessa forma. Estamos tentando criar alguma forma de sermos felizes, mas isto apenas gera outros problemas.
Em seu país, vocês têm grandes quantidades de automóveis, mas isto não soluciona quaisquer problemas. Vocês têm produzido carros para ajudar a resolver os problemas da vida, mas percebo que isto também causa mais problemas. Quando meu discípulo Dayananda quis levar-me a um médico em Los Angeles, eu precisei passar pelo inconveniente de viajar 50 quilômetros, antes que pudesse consultar o médico. Como têm automóveis, vocês precisam viajar 50 ou 60 quilômetros para se encontrarem com seus amigos.

Vocês podem viajar de Nova Iorque a Boston em uma hora, mas gastam muito mais do que isto apenas para chegarem ao aeroporto. Essa situação é conhecida como maya-sukhaya. Maya significa falso, ilusório. Estamos tentando criar alguma situação muito confortável, mas acabamos produzindo outra situação desconfortável. Assim são as coisas no mundo material. Não ficamos satisfeitos com os confortos naturais oferecidos por Deus e pela natureza e queremos criar confortos artificiais, mas acabamos por criar também algum desconforto. A maioria das pessoas não sabe disto. Elas pensam que estão criando uma situação muito confortável, mas na verdade estão viajando 80 quilômetros para chegar ao escritório onde trabalham pela própria subsistência e mais 80 quilômetros para voltar. No Havaí, um rapaz chamado Gaurasundara estava ocupado em manter nosso templo. Infelizmente, ele precisava viajar 80 quilômetros do templo ao trabalho. Eu fiquei muito preocupado ao ver que esse rapaz precisava viajar tal distância para satisfazer Krishna, mas agora Ele nos deu a facilidade, de forma que não precisamos trabalhar.

Tendo em vista essas condições, Prahlada Maharaja diz que esses vimudhans - essas pessoas materialistas, esses tolos - criaram um fardo desnecessário para si próprias, simplesmente com o propósito de alcançar felicidade temporária. Vimudhan...maya-sukhaya bharam udvahatah. Desta forma, na civilização védica, recomenda-se que a pessoa liberte-se da vida material, tome sannyasa (ordem de vida renunciada) e busque vida espiritual, sem qualquer outro tipo ansiedade.

Se alguém consegue executar consciência de Krishna na vida familiar, isto é muito bom. Bhaktivinoda Thakura era um chefe de família, um magistrado, mas ainda assim executava serviço devocional com muito zelo. Dhruva Maharaja e Prahlada Maharaja eram grhasthas (chefes de família), mas foram treinados de tal forma que, mesmo como chefes de família, não permitiam qualquer interrupção em seu serviço. Por esta razão, Prahlada Maharaja diz, "Eu aprendi a arte de sempre estar em consciência de Krishna". Que arte é esta? Tvad-virya-gayana mahamrta-magna-cittah: simplesmente glorificar as atividades e os passatempos gloriosos do Senhor. Virya significa: "muito heróico".

As atividades de Krishna são heróicas. Vocês podem conhecer essas atividades em nosso livro Krsna. O nome de Krishna, Sua fama, Suas atividades, Seus associados e tudo o mais são heróicos. Neste sentido, Prahlada Maharaja diz, "Estou certo de que, aonde quer que eu vá, posso glorificar suas atividades heróicas e estarei seguro. Não há qualquer razão para temer minha própria queda. Contudo, estou simplesmente ansioso pelas pessoas que criaram uma civilização, na qual estão sempre ocupados em trabalhar duro. Estou pensando nelas".

SÁBIOS SOLITÁRIOS

Prahlada acrescenta:
prayena deva munayah sva-vimukti-kama
maunam caranti vijane na parartha-nistah
naitan vihaya krpanam vimumuksa eko
nanyam tvad asya saranam bhramato ‘nunpasye

"Meu querido Senhor, existem algumas pessoas santas e sábios que estão muito interessados em sua própria liberação". Munayah significa pessoas santas ou filósofos. Prayena deva munayah sva-vimukti-kama: elas estão muito interessadas em sua própria liberação. Elas procuram viver em lugares solitários como as montanhas do Himalaia. Elas não conversam com ninguém e sempre estão temerosas de se misturarem com pessoas comuns da cidade e ficarem perturbadas ou até mesmo caírem. Elas pensam, "É melhor buscar minha própria salvação".
Prahlada Maharaja lamenta que esses grandes santos não venham às cidades, onde as pessoas estão desenvolvendo uma civilização que trabalha arduamente dia e noite. Esses santos não são muito compassivos. Mas Prahlada Maharaja diz, "Eu estou ansioso por essas pessoas caídas, que trabalham desnecessariamente de forma tão árdua, simplesmente para alcançar gratificação dos sentidos".

Ainda que houvesse algum objetivo em trabalhar tão arduamente, essas pessoas não sabem qual é. Tudo o que conhecem é sexo. Elas procuram um baile ou clube de nudismo, ou coisas do gênero. Prahlada Maharaja diz, naitan vihaye krpanan vimumuksa eka. "Meu Senhor, eu não quero apenas minha liberação. A não ser que leve comigo todas essas almas, eu não irei". Ele se recusa a ir para o reino de Deus sem levar consigo todas essas almas caídas. Isto é um vaisnava. Nanyam tvad asya saranam bhramato ‘nupasye: "Eu simplesmente quero ensinar-lhes como se render ao Senhor. Isto é tudo. Este é o meu objetivo".

O vaisnava sabe que, tão logo alguém se renda, o caminho fica livre. Naivodvije para duratyaya vaitaranyas tvad-virya-gayana-mahamrta-magna-cittah: "De uma forma ou de outra, simplesmente faça com que se curvem diante de Krishna". Este é um método simples. Todos vocês precisam curvar-se diante de Krishna com fé e dizer, "Meu Senhor, andei esquecido de Vós por tanto tempo, por tantas vidas. Agora, readquiri a consciência; por favor, aceite-me". Isto é tudo. Se alguém simplesmente aprender essa técnica e render-se sinceramente ao Senhor, seu caminho é aberto de imediato.

Esses são as considerações filosóficas dos vaisnavas. Eles sempre estão pensando em como liberar as almas condicionadas e caídas. Eles sempre estão envolvidos em fazer planos como esse, assim como ocorria com os Gosvamis. Qual era a ocupação dos seis Gosvamis de Vrndavana, discípulos diretos do Senhor Caitanya? A resposta é descrita por Srinivasa Acarya:

nana-sastra-vicaranaika-nipunau
sad-dharma-samsthapakau
manyau saranyakarau
radha-krsna-padaravinda-bhajana-
nandena mattalikau
vande rupa-sanatanau raghu-yugau
sri-jiva-gopalakau

"Os seis Gosvamis, quais sejam, Sri Rupa Gosvami, Sri Sanatana Gosvami, Sri Raghunatha Bhatta Gosvami, Sri Raghunatha Dasa Gosvami, Sri Jiva Gosvami e Sri Gopala Bhatta Gosvami, eram muito experientes em estudar diligentemente todas as escrituras reveladas com o propósito de estabelecer os princípios religiosos eternos para o benefício de todos os seres humanos. Assim, eles são honrados em todos os três mundos e são dignos de dar abrigo, porque estão sempre absortos no humor das gopis e ocupados em serviço amoroso transcendental a Radha e Krishna".

Com compaixão vaisnava semelhante, Pariksit Maharaja diz a Sukadeva Gosvami, "Você descreveu os diferentes tipos de condições de vida infernal. Agora, diga-me como se pode liberar as pessoas que estão sofrendo. Por gentileza, explique-me isto".

adhuneha maha-bhaga
yathaiva narakan narah
nanogra-yatanan neyat
tan me vyakhyatum arhasi

Narah significa humanos, aqueles que são caídos. Narakan narah nanogra-yatanan neyat tan me: "Como eles podem ser liberados de suas misérias acerbas e dores horríveis?" Este é o coração de um vaisnava. Maharaja Pariksit diz, "De uma forma ou de outra, eles caíram nessa vida infernal. Contudo, isto não significa que eles devam permanecer nessa condição. Deve haver algum meio, pelo qual eles podem ser liberados. Assim, por gentileza, explique-me isto".

OS TIPOS DE PECADO

Sukadeva Gosvami respondeu:
na ced ihaivapacitim yathamhasah
krtasya kuryan mana-ukta-panibhih
druvam sa vai pretya narakan upaiti
ye kirtita me bhavatas tigma-yatanah

"Sim, eu já descrevi os diferentes tipos de condições infernais e a vida de dores acerbas, mas a pessoa deve evitar isto".

Como isso pode ser feito? As atividades pecaminosas são cometidas de várias formas. Podemos fazer um plano - "Eu matarei esse homem". Isto é pecaminoso. Quando a mente está pensando, sentindo e desejando, então há uma ação.

Outro dia, eu estava lendo um livro que dizia que, se o cão de alguém latir para você enquanto passa pela rua, então de acordo com a lei há uma ofensa por parte do proprietário do animal. Ninguém deve ser intimidado pelos latidos dos cães e, por esta razão, cada qual deve cuidar do seu animal. Eu li isto. Esta é uma das leis do seu país. O cão está simplesmente latindo, mas isto é condenável. O cão não é responsável porque é um animal. Entretanto, como o proprietário do animal fez do cão seu melhor amigo, ele é legalmente responsável. Se um cão vadio entrar em sua casa, ele não pode ser morto, mas os proprietários do animal podem ser processados.
Assim como o latido do cão é ilícito, também é condenável quando vocês falam algo ofensivo aos outros. Isto é o mesmo que latir.

Portanto, as atividades pecaminosas são cometidas de várias formas. Se pensarmos em atividades pecaminosas, ou se falarmos algo pecaminoso, ou se na verdade cometermos uma atividade pecaminosa, tudo isso é considerado atividades pecaminosas. Dhruvam as vai pretya narakan upaiti. A pessoa deve ser punida por essas atividades pecaminosas.

As pessoas não acreditam numa vida futura, porque querem evitar esse aborrecimento. Mas isto não é possível. Devemos agir de acordo com a lei, ou seremos punidos. Da mesma forma, não é possível fugir às leis de Deus. Isto é impossível. Eu posso ludibriar outras pessoas, roubar e esconder-me, desta forma fugindo à punição da lei do estado, mas não posso eximir-me da lei superior, a lei da natureza. Isto é muito difícil. Existem muitas testemunhas. A luz do dia é testemunha, a luz da lua é testemunha e Krishna é a testemunha suprema. Vocês podem dizer, "Estou cometendo esse pecado, mas ninguém pode me ver".

Krishna é a testemunha suprema sentada dentro dos seus corações. Ele registra o que vocês estão pensando e fazendo. Ele também dá facilidades. Se vocês quiserem fazer alguma coisa para satisfazer seus sentidos, Krishna dá os meios para essa ação. No Bhagavad-gita, diz-se que, Sarvasya caham hrdi sannivistah: "Eu estou sentado no coração de todos". Mattah smrtir-jnanam-apohanam ca. "De Mim provêm a lembrança, o conhecimento e o esquecimento".
Desta forma, Krishna nos dá a oportunidade. Se vocês quiserem Krishna, então Ele dar-lhes-á a chance de obtê-Lo; mas se vocês não quiserem Krishna, então Ele dar-lhes-á a chance de esquece-Lo. Se vocês quiserem desfrutar da vida esquecendo-se de Krishna ou Deus, então Ele dará todas as oportunidades para vocês esquecerem; mas se quiserem desfrutar da vida em consciência de Krishna, Ele dar-lhes-á a chance de progredirem em consciência de Krishna. A escolha é de vocês.

Se vocês pensam que podem ser felizes sem consciência de Krishna, Ele não faz qualquer objeção a isso. Yathecchasi tatha kuru. Depois de aconselhar Arjuna, Krishna simplesmente disse, "Agora, Eu expliquei tudo a você. O que você desejar, pode faze-lo". Arjuna respondeu imediatamente, karisye vacanam tava: "Agora, eu executarei Sua ordem". Isto é consciência de Krishna.

KRISHNA AJUDARÁ

Deus não interfere com sua pouca independência. Se vocês quiserem agir de acordo com as ordens de Deus, então Ele ajudará. Mesmo que venham a cair algumas vezes, se vocês forem sinceros - "A partir de hoje, manter-me-ei em consciência de Krishna e executarei Suas ordens" -, então Krishna ajudará. Em todas as circunstâncias, mesmo que vocês caiam, Ele perdoará e dar-lhes-á mais inteligência. Essa inteligência dirá, "Não faça isso. Agora, continue executando seu dever". Contudo, se vocês quiserem esquecer Krishna, se quiserem conquistar a felicidade sem Krishna, Ele dará muitas oportunidades para que vocês esqueçam d’Ele vida após vida.

Pariksit Maharaja diz aqui, "Não é que, se eu disser que Deus não existe, então não haverá Deus, ou eu não serei responsável pelo que fizer". Essa é a teoria dos ateus. Os ateus não querem Deus, porque sempre estão cometendo pecados. Se pensassem que Deus existe, então seriam forçados a tremer diante do pensamento de punição. Por esta razão, eles negam a existência de Deus. Este é o processo. Eles pensam que, se não aceitarem Deus, não haverá punição e eles podem fazer o que quiserem.

Quando os coelhos estão sendo atacados por animais maiores, eles fecham os olhos e pensam, "Eu não serei morto". Contudo, eles são mortos apesar disto. Da mesma forma, podemos negar a existência de Deus e Suas leis, mas ainda assim Eles existem. Na suprema corte, vocês podem dizer, "Eu não me importo com a lei do governo", mas serão forçados a aceitar a lei do governo. Se vocês negarem a lei do estado, então serão colocados na prisão e sofrerão inevitavelmente. Pela mesma razão, vocês podem negar tolamente a existência de Deus - "Deus não existe" ou "Eu sou Deus" -, mas ainda assim serão responsáveis por todas as suas ações, tanto boas quanto más.

Existem dois tipos de atividades - boas e más. Se agirem corretamente e realizarem atividades piedosas, então vocês terão boa fortuna; se executarem atividades pecaminosas, sofrerão inevitavelmente. Portanto, Sukadeva Gosvami diz:

tasmat puraivasv iha papa-niskrtau
yateta mrtyor avipadyatatmana
dosasya drstva guru-laghavam yatha
bhisak cikitseta rujam nidanavit

Existem diferentes tipos de reparação. Se vocês cometerem um pecado e anularem seus efeitos fazendo alguma outra coisa, isto é reparação. Existem exemplos disto na Bíblia cristã. Sukadeva Gosvami diz, "Vocês devem saber que são responsáveis e, de acordo com a gravidade da vida pecaminosa, deverão aceitar algum tipo de expiação, conforme está descrito nas escrituras (sastras)".

Assim como uma pessoa doente precisa procurar o médico e pagar por seus honorários como forma de compensação, de acordo com a forma védica de vida há uma classe de brahmanas, que se deve consultar para determinar a reparação recomendada, de acordo com o pecado que se cometeu. Sukadeva Gosvami diz que a pessoa deve executar a reparação prescrita de acordo com a gravidade da sua vida pecaminosa. Ele continua explicando seu exemplo: dosasya drstva guru-laghavam yatha bhisak cikitseta rujam nidanavit. Quando vocês consultam um médico, ele prescreve ou medicamento barato ou caro de acordo com a gravidade da doença. Se tiverem apenas uma dor de cabeça, ele poderá prescrever aspirina, mas se houver algo mais grave, ele imediatamente recomendará uma intervenção cirúrgica, que custará milhares de dólares. Da mesma forma, vida pecaminosa é uma condição enferma, de forma que se deve seguir o tratamento prescrito para recuperar a saúde.

A aceitação de repetidos nascimentos e mortes é uma condição doentia da alma. A alma não tem nascimento e morte ou doença, porque é espírito. Krishna diz no Bhagavad-gita: na jayate (a alma não tem nascimento) e mriyate (ela não morre). Nityah sasvato ‘yam...na hanyate hanyamane sarire. A alma é eterna e indestrutível. Na hanyate significa que ela não pode ser morta ou destruída, mesmo depois da decomposição desse corpo.

EDUCAÇÃO IMPERFEITA
O ponto falho da civilização moderna é que não há um sistema educacional para instruir as pessoas quanto ao que acontece depois da morte. Assim, nossa educação é das mais imperfeitas, porque sem esse conhecimento do que acontece depois da morte, a pessoa morre como um animal. O animal não sabe que receberá um outro corpo; ele não tem esse conhecimento.

O propósito da vida humana não é que nos tornemos animais. A pessoa não deve se interessar simplesmente por comer, dormir, acasalar e defender-se. Vocês podem fazer belos arranjos para comer, ou construir belas casas para dormir, ou fazer arranjos sofisticados para a vida sexual, ou desenvolver fortes sistemas de defesa para proteger-lhes, mas isto não significa que vocês são humanos. Este tipo de civilização é vida animal. Os animais também estão interessados em comer, dormir e acasalar e, de acordo com seus próprios métodos, também se defendem. Então, qual é a diferença entre vida humana e vida animal, se vocês simplesmente seguirem esses quatro princípios da natureza material?

A diferença aparece quando o ser humano se torna inquisitivo - "Por que fui colocado nessa condição miserável? Existe alguma forma de remedir isto? Eu não quero morrer. Quero ser feliz e viver em paz. Existe alguma chance de conseguir isto? Qual é o método? Qual é a ciência?" Quando surgem essas perguntas e as pessoas tomam medidas para tentar responde-las, isto é civilização humana; caso contrário, é civilização de cães, civilização animal.

Os animais ficam satisfeitos se puderem comer, dormir, ter alguma atividade sexual e algum meio de defesa. Na verdade, não existe qualquer defesa, porque ninguém pode proteger-se das mãos da morte cruel. Por exemplo, Hiranyakasipu queria viver para sempre e, para isto, submeteu-se a severas austeridades. Hoje em dia, os chamados cientistas estão afirmando que impedirão a morte por métodos científicos. Essa é outra afirmação absurda. Isto não é possível. Vocês podem fazer grandes avanços em conhecimento científico, mas não há solução científica para esses quatro problemas, quais sejam, nascimento, morte, velhice e doença.

A pessoa inteligente buscará solucionar esses quatro problemas fundamentais. Ninguém quer morrer, mas não existe solução. Eu devo morrer. Todos estão muito ansiosos por sustar o crescimento populacional usando diversos métodos anticoncepcionais, mas ainda assim os nascimentos continuam. Desta forma, não se pode evitar que pessoas nasçam. Vocês podem inventar novos medicamentos por métodos científicos, mas não podem controlar as doenças. Não é possível simplesmente tomar um comprimido e ficar livre da doença.

No Bhagavad-gita [13.10], há o seguinte verso, janma-mrtyu-jara-vyadhi-duhkha-dosanu-darsanam: Alguém poderia pensar que solucionou todos os problemas da vida, mas quando haverá solução para esses quatro problemas, que são nascimento, morte, velhice e doença? Esta solução é a consciência de Krishna.

Krishna também diz [4.9], janma karma ca me divyam evam yo vetti tattvatah/tyaktva deham punar jama naiti mam eti so ‘rjuna. Todos estamos trocando de corpos a todo o momento. A última fase dessa troca de corpos é conhecida como morte. Contudo, Krishna diz, "Se alguém compreende Meu aparecimento e desaparecimento e Minhas atividades - não superficialmente, mas em profundidade -, depois de deixar esse corpo jamais aceita novamente um corpo material".

O que acontece com essa pessoa? Mam eti: ela retorna a Krishna. Se quiserem ir até Krishna, então vocês precisam preparar seus corpos espirituais. Isto é consciência de Krishna. Se vocês conseguirem se manter em consciência de Krishna, então aos poucos estarão preparando seus próximos corpos - corpos espirituais -, que os levarão imediatamente para Krsnaloka, onde serão felizes. Lá vocês viverão perpetuamente em bem-aventurança.

Muito obrigado,

(Palestra proferida por Srila Prabhupada em 21 de julho de 1971 em Nova Iorque.)


Mundo Material à Grande Floresta do desfrute
Quando o rei Pariksit perguntou a Sukadeva Goswami sobre o significado direto da floresta material, Sukadeva Goswami respondeu da seguinte maneira:

Meu querido rei, um homem que pertence à comunidade mercantil está sempre interessado em ganhar dinheiro. Ás vezes, ele entra na floresta para adquirir algumas mercadorias baratas como madeira e terra para vendê-las na cidade a bons preços. Do mesmo modo, a alma condicionada, dominada pela cobiça, entra neste mundo material para obter algum lucro material. Gradualmente, ela penetra nas regiões mais profundas da floresta, sem conseguir saber como sair dela.

Ao ter entrado no mundo material, a alma pura fica condicionada pela atmosfera material, criada pela energia externa sob o controle do Senhor Vishnu. Assim, a entidade viva fica sob o controle da energia externa, daiva maya. Vivendo independente e completamente perdida na floresta, ela não obtém a associação dos devotos que estão sempre ocupados no serviço ao Senhor.

Uma vez situada na concepção corporal, ela obtém diferentes tipos de corpos, um após o outro, sob a influência da energia material e impelida pelos modos da natureza material (sattva-guna, rajo-guna e tamo-nguna). Desse modo, a alma condicionada algumas vezes se dirige para os planetas celestiais, outras vezes para os planetas terrenos e ainda outras vezes para os planetas inferiores e espécies inferiores de vida. Assim, a entidade viva sofre continuamente devido aos diferentes tipos de corpos. Esses sofrimentos e dores às vezes se misturam. Algumas vezes, são muito graves e, outras vezes, não.

Estas condições corporais são obtidas devido à especulação mental das almas condicionadas. Ela utiliza sua mente e os cinco sentidos para adquirir conhecimento que produz os diferentes corpos e as diversas condições. Ao utilizar os sentidos sob o controle da energia externa, maya, a entidade viva sofre as condições miseráveis da existência material. Ela, na verdade, está procurando por alívio, mas geralmente é confundida, ainda que, às vezes, obtém alívio depois de passar por grandes dificuldades. Lutando desse modo pela existência, a alma não consegue o abrigo dos devotos puros, que são como abelhas sempre ocupados no serviço amoroso aos pés de lótus do Senhor Vishnu.

Na floresta da existência material, os sentidos descontrolados são como saqueadores. A alma condicionada pode ganhar algum dinheiro para o avanço na consciência de Krishna, mas desafortunadamente os sentidos descontrolados saqueiam seu dinheiro através da gratificação dos sentidos. Os sentidos são como ladrões porque fazem que a pessoa gaste seu dinheiro desnecessariamente para ver, cheirar, saborear, tocar, desejar e ansiar. De tal modo, a alma condicionada é obrigada a satisfazer os seus sentidos, e, assim, gasta todo seu dinheiro. Na verdade, este dinheiro é obtido para execução de princípios religiosos mas é levado pelos sentidos ladrões.

Meu querido rei, os membros familiares neste mundo material conhecidos como esposa e filhos comportam-se na verdade como tigres e chacais. O pastor tenta proteger suas ovelhas o melhor que pode, mas os tigres e raposas levam-nas embora de qualquer jeito à força. Do mesmo modo, ainda que uma pessoa avara deseje guardar o seu dinheiro com muito cuidado, os membros de sua família levam embora à força todos seus bens, mesmo que ele esteja muito vigilante.

Todo ano, o camponês ara seu campo de grãos, desenraizando completamente todas as ervas daninhas. Não obstante, as sementes repousam na terra e, por não serem completamente queimadas, elas brotam novamente junto com as plantas que foram semeadas no campo. Mesmo depois de ter sido profundamente arado, o mato cresce densamente. Do mesmo modo, a vida familiar é um campo de atividades fruitivas. A menos que seja completamente queimado, o desejo de desfrutar da vida familiar cresce repetidamente. Mesmo que a cânfora seja tirada do pote, este guarda o cheiro de cânfora. Enquanto as sementes do desejo não forem destruídas, as atividades fruitivas não serão destruídas.

Algumas vezes, a alma condicionada na vida familiar, apegada à riqueza e posses materiais, é perturbada por muriçocas e mosquitos, e, outras vezes, gafanhotos, aves de rapina e ratos causam problemas. Não obstante, ela ainda vagueia pelo caminho da existência material. Devido à ignorância, ela se torna luxuriosa e se ocupa em atividades em busca dos frutos de suas ações. Por ter a mente ocupada nessas atividades, ela percebe o mundo material como sendo permanente, embora seja tão temporário como uma fantasmagoria, uma paisagem no céu.

Às vezes, nesta paisagem no céu (gandharva-pura), a alma condicionada bebe, come e faz sexo. Sentindo-se completamente apegada, ela corre atrás dos objetos dos sentidos igual a um veado que corre atrás de uma miragem no deserto.

Às vezes, a entidade viva está interessada no excremento amarelo conhecido como ouro e corre atrás dele. Esse ouro é fonte de opulência material e inveja, e pode capacitar a pessoa ao desfrute de sexo ilícito, jogos de azar, comer carne e intoxicação. As pessoas dominadas pelo modo da paixão sentem-se atraídas pela cor do ouro, tal como a pessoa que sente frio na floresta corre atrás de uma luz fosforescente num pântano, considerando que é fogo verdadeiro.

Às vezes, a alma condicionada absorve-se na busca de moradia ou apartamento e em busca de suprir-se de água e riquezas para manter seu corpo. Absorta em satisfazer as várias necessidades, ela esquece tudo e perpetuamente corre em círculos na floresta da existência material.

Às vezes, como se tivesse sido enceguecida pela poeira de um vendaval, a alma condicionada percebe a beleza do sexo oposto, que se chama de pramada. Desse modo enfeitiçada, a alma se deita no colo de uma mulher e, nesse instante, seu bom senso é dominado pela força da paixão. Assim, fica quase cega pelo desejo luxurioso e desobedece as normas que governam a vida sexual. Não sabe que esta desobediência está sendo testemunhada por diversos semideuses e desfruta de sexo ilícito na calada da noite, sem ver o castigo futuro que está à sua espera.

A alma condicionada às vezes percebe pessoalmente a futilidade do desfrute dos sentidos no mundo material, e outras vezes considera que o desfrute material é repleto de misérias. Contudo, devido à sua forte concepção corpórea de vida, sua memória é destruída e corre sem parar atrás do desfrute material, assim como um animal corre atrás de uma miragem no deserto.

Às vezes, a alma condicionada é muito afligida pelo castigo que recebe de seus inimigos e dos funcionários do governo, que, direta ou indiretamente, utilizam palavras ásperas contra ele. Nesse momento, seu coração e ouvidos entristecem. Tais punições podem ser comparadas aos sons de corujas e de grilos.

Devido às atividades piedosas que executou em suas vidas passadas, a alma condicionada recebe privilégios materiais nesta vida, mas quando estas terminam, ele se refugia na fortuna e nas opulências, que não podem ajudá-lo nem nesta vida nem na próxima. Devido a isso, ele se aproxima dos mortos vivos que possuem estas coisas. Tais pessoas são comparadas a árvores, arbustos impuros e a poços envenenados.

Às vezes, para mitigar o sofrimento nesta floresta do mundo material, a alma condicionada recebe favores baratos de ateus. Então, ela perde toda inteligência em sua associação. Isto é exatamente como mergulhar num rio raso. O resultado é que a pessoa simplesmente quebra a cabeça. Ela não é capaz de aliviar seu sofrimento causado pelo calor e sofre de ambas as maneiras. A alma condicionada desorientada também se aproxima dos assim chamados sadhus e svamis que pregam contra os princípios dos Vedas. Ela não recebe benefício deles, seja no presente seja no futuro.

Neste mundo material, quando, apesar de explorar os demais, não consegue fazer arranjos para sua própria subsistência, a alma condicionada tenta explorar seu pai ou filho, tirando as posses daqueles parentes, mesmo que sejam muito insignificantes. Se não puder obter os pertences de seu pai, filho ou outros parentes, ela está disposta a causar-lhes todos os tipos de problemas.

Neste mundo, a vida familiar é exatamente como o fogo abrasante na floresta. Não existe a menor felicidade e, gradualmente, a pessoa fica cada vez mais envolta na infelicidade. Na vida familiar, nada favorece a felicidade perpétua. Ao se implicar na vida doméstica, a alma condicionada queima no fogo da lamentação. Ás vezes, condena a si mesma como sendo desafortunada e outras vezes clama sofrer por não ter executado atividades piedosas em sua vida anterior.

Os homens do governo são como os demônios antropófagos conhecidos como Rakshasas. Algumas vezes, esse pessoal do governo volta-se contra a alma condicionada e tira-lhe toda sua riqueza acumulada. Despojada de suas economias, a alma condicionada perde todo entusiasmo. Na verdade, é como se perdesse a própria vida.

Às vezes, a alma condicionada imagina que seu pai ou avô renasceram na forma de seu filho ou neto. Deste modo, sente o tipo de felicidade que algumas vezes se experimenta num sonho, e a alma condicionada sente prazer com tais especulações mentais.

Na vida familiar, a pessoa é obrigada a realizar muitos sacrifícios e atividades em busca dos frutos, especialmente a cerimônia de casamento dos filhos e filhas e a cerimônia do cordão sagrado. Esses são os deveres de um grhastha, e são muitos e de difícil execução. Comparam-se a uma grande montanha que precisa ser cruzada por aqueles que estão apegados a atividades materiais. A pessoa que deseja passar por cima dessas cerimônias ritualistas sente dores como o perfurar de espinhos e pedriscos ao tentar subir a montanha descalço. Desse modo, a alma condicionada sofre ilimitadamente.

Às vezes, devido a fome e sede, a alma condicionada fica tão perturbada que perde a paciência e fica zangada com seus bem-amados filhos, filhas e esposa. Assim, sendo malvado com eles, sofre mais ainda.

Sukadeva Gosvami continuou dizendo a Maharaj Pariksit:
Meu querido rei, o sono é exatamente como um cobra píton. Aqueles que vagueiam pela floresta da vida material são sempre devorados pela píton do sono. Picados por esta cobra, permanecem sempre na escuridão da ignorância. São como corpos mortos despejados numa floresta distante. Assim, as almas condicionadas não conseguem compreender os acontecimentos da vida.

Na floresta da ilusão, a alma condicionada é às vezes picada por inimigos invejosos, comparados a serpentes e outras criaturas. Através dos truques do inimigo, a alma condicionada decai de sua posição prestigiosa. Sentindo-se ansiosa, ela sequer consegue dormir direito. Torna-se cada vez mais infeliz e gradualmente perde sua inteligência e consciência. Em tal estado, fica quase que perpetuamente como um cego que caiu num poço escuro de ignorância.

A alma condicionada às vezes sente-se atraída pela pequena felicidade que se obtém do gozo dos sentidos. Assim, faz o sexo ilícito ou rouba a propriedade alheia. Nessa circunstância, pode vir a ser presa pelo governo ou castigada pelo esposo ou protetor da mulher. Desse modo, simplesmente por um pouquinho de satisfação material, ela cai numa condição infernal e vai para a cadeia por estupro, sequestro, roubo etc.

Portanto, os eruditos e transcendentalistas condenam o caminho materialista de atividades fruitivas por serem a fonte de onde se originam as misérias materiais e seu campo de proliferação, tanto nesta vida como na próxima.

Ao enganar e roubar o dinheiro de outrem, a alma condicionada de algum modo consegue manter o fruto desse roubo ou trapaça em sua posse e escapa do castigo. Então, outro homem, chamado Devadatta, o trapaceia e tira seu dinheiro. Do mesmo modo, ainda outro, chamado Visnumitra, rouba o dinheiro de Devadatta e o leva para si. Em qualquer caso, o dinheiro nunca fica num único lugar. Passa de mão em mão. Em última análise, ninguém consegue desfrutar do dinheiro, que sempre continua sendo propriedade da Suprema Personalidade de Deus.

Por ser incapaz de proteger-se das misérias triplas da existência material, a alma condicionada fica muito melancólica e vive uma vida de lamentação. Estas misérias triplas são aquelas promovidas pelas calamidades decorrentes das atividades dos semideuses (tais como ventos gelados e calor tórrido), as provocadas por outras entidades vivas e as misérias causadas pela própria mente e corpo.

No que se refere às transações monetárias, se uma pessoa trapaceia a outra, seja por um ninharia, elas tornam-se inimigos.

Conforme já mencionei, nesta vida materialista, existem muitas dificuldades e todas são insuperáveis. Além disso, há as dificuldades advindas da assim chamada felicidade, sofrimento, apego, ódio, medo, falso prestígio, ilusão, loucura, lamentação, espanto, cobiça, inveja, inimizade, insulto, fome, sede, tribulação, doença, nascimento, velhice e morte. Estas se combinam para dar à alma condicionada materialista apenas misérias.

Às vezes, a alma condicionada fica atraída pela ilusão personificada (sua esposa ou namorada) e fica ansiosa de ser abraçada por uma mulher. Desse modo, perde sua inteligência bem como o conhecimento sobre seu objetivo de vida. Nesse momento, sem continuar a tentar o cultivo da vida espiritual, a alma fica excessivamente apegada a sua esposa ou namorada e tenta proporcionar-lhe uma residência apropriada. Mais uma vez, ela fica tão ocupada sob o abrigo desse lar e é cativada pelas conversas, olhares e atividades de sua esposa e filhos. Dessa forma, perde sua consciência de Krishna e lança-se na densa floresta da existência material.

A arma pessoal utilizada por Krishna, o disco, é chamado de Hari-chakra, o disco de Hari. Este chakra é a roda do tempo. Expande-se desde o surgimento dos átomos até a hora da morte de Brahma e controla todas as atividades. Ele está sempre girando e desgastando as vidas das entidades vivas, desde o Senhor Brahma indo até uma insignificante folha de grama. Assim, a pessoa muda da infância para a meninice, para a juventude e a maturidade e desse modo se aproxima do fim da vida. É impossível reprimir esta roda do tempo. Ela é muito severa pois é a arma pessoal da Suprema Personalidade de Deus.

Algumas vezes, a alma condicionada, temendo a aproximação da morte, deseja adorar alguém que possa salvá-la do perigo iminente. Contudo, ela não se importa com a Suprema Personalidade de Deus, cuja arma é o incansável fator tempo. A alma condicionada, pelo contrário, abriga-se de um deus inventado pelos homens e descrito em escrituras desautorizadas. Tais deuses são como falcões, abutres, garças e corvos. As escrituras védicas não se referem a eles. A morte iminente é como o ataque de um leão, e nem abutres, falcões, corvos e garças podem salvar a pessoa de tal ataque. A pessoa que se refugia em deuses desautorizados e criados pelos homens não pode ser salva das garras da morte.

Os pseudo swamis, iogues e encarnações falsas que não acreditam na Suprema Personalidade de Deus são conhecidos como pasandis. Eles mesmos são decaídos e enganados pois desconhecem o verdadeiro caminho para o avanço espiritual, e, por sua vez, quem se dirigir a eles será certamente enganado. Quando a pessoa é desse modo enganada, às vezes, ela se abriga dos verdadeiros seguidores de princípios védicos (brâmanes ou pessoas em consciência de Krishna), que conforme os rituais védicos ensinam a todos a adorar a Suprema Personalidade de Deus. Entretanto, por serem incapazes de aderir a esses princípios, esses patifes caem novamente e tomam abrigo de sudras que são muito hábeis em fazer arranjos para a indulgência sexual. O sexo é muito proeminente entre animais como os macacos, e tais pessoas, que se sentem revigoradas pelo sexo, podem ser chamados de descendentes de macacos.

Dessa maneira, os descendentes dos macacos misturam-se entre si, e em geral são conhecidos como sudras. Por desconhecerem o objetivo da vida, movem-se sem hesitar, e vivem livremente. São cativados simplesmente por ver o rosto uns dos outros, o que lhes traz à lembrança o gozo dos sentidos. Sempre envolvidos em atividades materiais conhecidas como gramya-karma, trabalham arduamente para obter benefícios materiais. Assim, esquecem completamente que um dia suas vidas curtas chegarão ao fim e que se degradarão no ciclo evolutivo.

Assim como um macaco pula de uma árvore para outra, a alma condicionada pula de um corpo a outro. Assim como o macaco é por fim capturado pelo caçador e é incapaz de escapar do cativeiro, a alma condicionada, capturada pelo prazer sexual momentâneo, apega-se aos diversos tipos de corpos e é engaiolada na vida familiar. A vida familiar concede à alma condicionada um festival de prazer sexual momentâneo, e, desse modo, ela é inteiramente incapaz de escapar do arrebatamento material.

Neste mundo material, ao se esquecer de seu relacionamento com a Suprema Personalidade de Deus e não se importar com a consciência de Krishna, a alma condicionada simplesmente se ocupa em diferentes tipos de atividades perniciosas e pecaminosas. Então, ela fica sujeita às misérias triplas, e, por medo do elefante da morte, cai na escuridão encontrada na caverna da montanha.

A alma condicionada sofre muitas condições corpóreas miseráveis, tais como as agruras do frio rigoroso e dos ventos fortes. Ela também sofre devido às atividades de outras entidades vivas e devido às perturbações naturais. Quando é incapaz de neutralizá-las e tem de permanecer numa condição miserável, ela naturalmente fica muito melancólica, pois deseja desfrutar das facilidades materiais.

Às vezes, as almas condicionadas intercambiam dinheiro, mas com o passar do tempo, surge a inimizade devido à trapaça. Ainda que possa existir um lucro ínfimo, as almas condicionadas abandonam a amizade e se tornam inimigas.

Às vezes, sem ter dinheiro, a alma condicionada não consegue obter acomodações apropriadas. Outras vezes, ela sequer tem um lugar para se sentar, nem consegue satisfazer suas demais necessidades. Em outras palavras, ela cai na indigência, e, nesse momento, torna-se incapaz de garantir as necessidades por meios honestos. Decide então apoderar-se por meios desonestos da propriedade alheia. Quando não obtém as coisas que deseja, simplesmente é insultada pelos outros e assim torna-se muito melancólica.

Ainda que as pessoas possam ser inimigas, elas algumas vezes se casam para satisfazer seus desejos repetidas vezes. Desafortunadamente, esses casamentos não duram muito, e tais pessoas separam-se repetidamente por meio do divórcio ou por outros meios.

O caminho deste mundo material está repleto de misérias materiais, e vários tipos de problemas perturbam as almas condicionadas. Às vezes, elas perdem, e outras vezes, ganham. Em ambos os casos, o caminho está coberto de perigos. Às vezes, a morte ou outras circunstâncias separam a alma condicionada de seu pai. Pondo-o de lado, ela gradualmente se apega a outras pessoas, tais como seus filhos. Desse modo, a alma condicionada fica às vezes iludida e temerosa. Outras vezes, ela chora alto devido ao medo. Às vezes, ela se sente feliz mantendo sua família, e outras vezes ela se sente jubilosa e canta melodiosamente. Desse modo, ela fica enredada e esquece que desde tempos imemoriais ela está separada da Suprema Personalidade de Deus. Desse modo, ela atravessa o perigoso caminho da existência material, e nesse caminho ela não é feliz de modo algum. As pessoas que são auto-realizadas simplesmente abrigam-se da Suprema Personalidade de Deus a fim de escapar desta perigosa existência material. Sem aceitar o caminho devocional, a pessoa não pode se livrar das garras da existência material. A conclusão é que ninguém pode ser feliz na vida material. A pessoa deve adotar a consciência de Krishna.

As pessoas santas, que são amigáveis para com todas as entidades vivas, têm uma consciência pacífica. Elas têm seus sentidos e mentes controlados, e atingem com facilidade o caminho da liberação, o caminho de volta ao Supremo. Por ser desafortunada e apegada às condições materiais miseráveis, tal materialista não consegue associar-se com tais pessoas santas.

Houve muitos grandes reis santos que eram muito hábeis em executar rituais de sacrifício e muito competentes em conquistar outros reinos. Contudo, apesar de seu poder, não foram capazes de alcançar o serviço amoroso à Suprema Personalidade de Deus. Isso se deve a que esses grandes reis não conseguiram sequer conquistar a falsa consciência de que "eu sou este corpo e esta é minha propriedade". Assim, eles simplesmente criaram inimizades com reis rivais, lutaram contra eles e morreram sem ter cumprido com a verdadeira missão da vida.

Ao abrigar-se da trepadeira da atividade fruitiva e devido a suas atividades piedosas, a alma condicionada consegue elevar-se aos sistemas planetários superiores e, desse modo, é capaz de obter a liberação das condições infernais, mas, desafortunadamente, ela não consegue permanecer por lá. Após colher os resultados de suas atividades piedosas, ela tem de retornar aos sistemas planetários inferiores. Dessa maneira, ela perpetuamente eleva-se e decai.
Tendo resumido os ensinamentos de Jada Bharata, Sukadeva Gosvami disse:

Meu querido rei Pariksit, o caminho indicado por Jada Bharata é como o caminho seguido por Garuda, o carregador do Senhor, sendo que os reis comuns são como moscas. As moscas não conseguem seguir o caminho de Garuda, e, até o momento, nenhum dos grandes reis e líderes vitoriosos pôde seguir esse caminho do serviço devocional, sequer mentalmente.

O grande Maharaj Bharata abandonou tudo que possuía, pois desejava muito servir à Suprema Personalidade de Deus, Uttamasloka. Ele abandonou sua bela esposa, lindos filhos, grandes amigos e um império enorme. Ainda que essas coisas todas sejam muito difíceis de se abandonar, Maharaj Bharata era tão exaltado que as abandonou assim como alguém abandona o excremento após evacuar. Essa era a grandeza de Sua Majestade.

Sukadeva Gosvami continuou:

Meu querido rei, as atividades de Bharata Maharaj são maravilhosas. Ele abandonou tudo aquilo que é difícil de ser abandonado pelos demais. Ele abandonou seu reino, sua esposa e sua família. Sua opulência era tanta que até mesmo os semideuses o invejavam, e, mesmo assim, ele abandonou-a. Era muito apropriado que uma grande personalidade como ele fosse um grande devoto. Ele foi capaz de renunciar a tudo devido a estar tão atraído pela beleza, opulência, reputação, conhecimento, força e renúncia da Suprema Personalidade de Deus, Krishna. Krishna é tão atraente que a pessoa pode abandonar todas as coisas indesejáveis por Ele.

Na verdade, mesmo a liberação é considerada insignificante por aqueles cujas mentes estão atraídas ao serviço amoroso ao Senhor. Mesmo vivendo dentro de um corpo de veado, Bharata Maharaj não se esqueceu da Suprema Personalidade de Deus. Portanto, quando abandonava o corpo de veado, orou da seguinte maneira:

"A Suprema Personalidade de Deus é o sacrifício personificado. Ele concede os resultados da atividade ritualista. Ele é o protetor dos sistemas religiosos, a personificação da ioga mística, o controlador de toda a Criação e a Superalma de toda entidade viva. Ele é belo e atraente. Eu estou abandonando este corpo oferecendo reverências a Ele, na esperança de que possa me ocupar perpetuamente em Seu serviço amoroso transcendental".

Após dizer isso, Bharata Maharaj abandonou o seu corpo. Os devotos interessados em ouvir e cantar (sravanam kirtanam) conversam regularmente sobre as características puras de Bharata Maharaj e louvam suas atividades. A pessoa que ouve e canta submissamente a respeito do muito auspicioso Maharaj Bharata, decerto aumenta a duração de sua vida e suas opulências materiais. A pessoa pode tornar-se muito famosa e facilmente atingir a promoção aos planetas celestiais, ou atingir a liberação de se fundir na existência do Senhor. Tudo o que se deseje poderá ser obtido simplesmente por ouvir, cantar e glorificar as atividades de Maharaj Bharata. Dessa forma, a pessoa pode satisfazer todos os seus desejos materiais e espirituais. Não é preciso pedir a ninguém mais por essas coisas, pois a pessoa pode obter todas as coisas desejáveis simplesmente por estudar a vida de Maharaj Bharata.

Srimad-Bhagavatam - 5º Canto, Capítulo 14
apresentado por Sua Divina Graça
A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada

-texto enviado por Alemão

Bhajan em Vrndávana-dhama
Um trecho de um raro bhajan escrito por Srila Prabhupada em bengali em 1958, e publicado no mês de dezembro daquele ano na revista Gaudíya Vedanta Samhita.
Estou sentado sozinho em Vrndávana-dhama. Neste estado de espírito estou tendo muitas realizações. Tenho esposa, filhos, filhas, netos, tudo. Porém, não tenho dinheiro, então eles são uma glória infrutífera.
Krsna mostrou-me a forma nua da natureza material. Por sua força tudo hoje se tornou sem gosto para mim.
YASYAHAM ANUGRHNAMI HARISYE TAD DHANAM SANAIH “aos poucos tiro toda a riqueza daqueles para quem sou misericordioso.”(Krsna)Como seria eu capaz de entender esta misericórdia do todo misericordioso!
Todos me abandonaram, vendo-me sem dinheiro, esposa, parentes, amigos, irmãos,todos. Isto é miséria, porém, isto me provoca riso. Sento-me sozinho e rio. Nesta maya-samsara (nascimentos e mortes), quem amo realmente? Para onde foram agora meus amados pai e mãe? Onde estão todos os mais velhos que eu, que eram minhaprópria família? Quem me dará notícias deles, diga-me, quem? Tudo o que restou desta vida familiar é uma lista de nomes.
A brincadeira de maya-samsara é assim como a espuma da água do mar, que torna a se misturar no mar. Ninguém é mãe ou pai, ou parente pessoal; Assim como a espuma do mar, eles permanecem apenas por um breve tempo. Exatamente como a espuma da água do mar volta a se misturar ao mar o corpo feito de cinco elementos encontra a destruição. Dessa maneira, quantos corpos a alma corporificada terá assumido? Seus parentes todos apenas se relacionam com este corpo temporário. Mas todos são seus parentes, irmãos na plataforma espiritual. Este relacionamento não é maculado com o aroma de maya.
O Senhor Supremo é a alma de todos. Em relação a Ele, todos no Universo são iguais. Todos os parentes seus, irmãos! Todas as bilhões de jívas (almas). Quando visto em relação com Krsna, todos eles estão em harmonia.
Esquecendo Krsna, a jiva deseja o gozo dos sentidos. E como resultado, ela é firmemente agarrada por maya. Como resultado das atividades passadas, o ser vivo aceita diferentes espécies de corpos.
Absorto nesta vestimenta, ele permanece esquecido de Sri Hari. Portanto maya lhe dá tanta espécie de misérias. E embora ele se levante e afunde neste oceano de misérias, Ainda assim ele pensa que é feliz. Deitado numa cama, sofrendo muito, tendo estado doente por muito tempo,“Estou muito bem hoje”, diz ele contente. Dou uma gargalhada do seu “sentindo-me muito bem!” É assim que a alma condicionada por maya sente-se “bem”. Quantos planos têm eles para permanecerem “bem”! Porém, vez após vez, a natureza os destrói.
Daiví hy esa gunamayí, esta é a maya do Senhor Supremo. Tente entender exatamente o significado do seu “sentir-se bem”. No mundo todo, ninguém está bem, mas ainda assim eles dizem isto. Desse modo maya engana a alma condicionada. Mas, ignorando que está sendo enganada, ela permanece absorta em maya. E embora chutada por maya, ela não abandona sua concepção falsa...
Quem adora Krsna é inteligente. Mas quem adora maya, foi enganado. Sendo enganado, ele se ocupa em passatempos temporários. Sem conhecimento do verdadeiro relacionamento das coisas, ele simplesmente se deixa atar pelo nó de maya.
Arjuna e Duryodhana lutaram ambos na mesma guerra. Porém Arjuna foi o melhor devoto e Duryodhana morreu. No mesmo campo de batalha, ambos, o querido e o detestável. Quem for inteligente será capaz de entender. Quem luta a guerra da vida conhecendo seu verdadeiro relacionamento, permanecerá vivo enquanto todos os outros perecerão. Quem não conhece seu relacionamento e toma algum outro caminho, nunca alcançará o amor a Deus, toda sua vida é inútil.
Entender primeiro devidamente seu relacionamento com Krsna,
depois mantendo essa relação, vá e lute com maya.